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Talita Ribeiro  ‪Viajante e escritora. Autora do Turismo de Empatia e criadora do #nyc10orless e do @elacandidata . Sempre escrevendo e contando novas histórias :)

Nas trincheiras (part 3)
É por isso que hoje eu comemoro 7 anos de festa, mesmo sabendo que o momento é de luta. É um prazer e privilégio te ter ao meu lado, compartilhando não apenas a vida, mas também as feridas abertas da nossa história, que não nos deixam esquecer quem somos, de onde viemos e no que acreditamos. Seguimos juntos, destoando e ocupando espaços, testemunhando que é possível sim, mas é preciso garantir oportunidades iguais para todos. 
Te amo, nos dias de alegria e de revolta. Te amo com esperança e fúria, porque não sei sentir de outra forma. (Fim)

Do outro lado da ponte (part 2)

O meu primeiro estágio aos 15, os festivais de cinema grátis ou quase, os sebos do centro, o queijo quente no almoço para receber o troco do ticket em dinheiro. Os seus primeiros sites para comércios locais, as festas da periferia, as alergias e espinhas na pele, a quase mudança para o Acre... Nós na universidade, você um ano antes, na federal, comendo uma única refeição ao dia, no bandejão por um real. Eu na particular, com bolsa integral, pegando ônibus e metrôs lotados, sofrendo assedio no transporte e no estágio. E me negando a prestar concurso público, enquanto você passava em Brasília e decidia abandonar tudo, para empreender em São Paulo, a minha cidade. 
Aos 20, nós dois endividados, pagando parcelas de empréstimos bancários, compartilhando a casa com amigos, contando moedas pra viajar. Até que decidimos nos casar, para oferecer um convênio melhor para o outro (de nada). E repetimos isso de novo, feito festa, paga com as nossas economias e as da minha família. Era pra ser o dia mais feliz da nossa vida, não fossem as inseguranças, cobranças todas e expectativas que não faziam sentido. Nós quase nos separamos, até encontrar o nosso tom, até assumir que o nosso amor é liberdade. E mais uma vez nos casamos, para viver em um outro país (obrigada). (Continua)

A base de nós (parte 1)

Gravidez antes do casamento, mães subnutridas, pais sem formação superior. Casa em terreno compartilhado, com primos e avós. A esperança de uma vida melhor sendo massacrada pelo desemprego, pelos vícios de quem deveria ser responsável, mas era jovem. A igreja como refúgio, como base de outra realidade possível. A educação como norte, por sorte e sabedoria daquelas que nos pariram. Roupas usadas, alimentação limitada, longas caminhadas até as melhores promoções. Uma caixinha de geléia de mocotó de vez em quando. Cesta básica. O sonho do danone e da bolacha ilimitada. Minha mãe picando um único bife e misturando com repolho, para render. A sua mãe cozinhando a couve do quintal, sem mistura. A gente vendendo chiclete, jornal, gelinho... Meu pai e avô pegando latinhas nas ruas. Seu pai fazendo forros e consertando sofás. A possibilidade de compartilhar a nossa história e começar a cruzá-la em computadores montados em casa, na internet discada após a meia noite. (Continua)

São 13 anos, é um sinal!
Ela me diz, enquanto rimos da coincidência, sentadas no chão de uma universidade. Foi nesse mesmo contexto que nos conhecemos, quando, acompanhadas de nossos pais, lutavámos por uma bolsa integral no curso de jornalismo. Era o primeiro ano do Prouni e, graças a uma confusão no sistema, caímos na mesma turma. Ela era da periferia, assim como eu, mas na outra margem da cidade, sua mãe era costureira, a minha diarista. E a gente não tinha nem roupa para desfilar pelos corredores da Anhembi Morumbi. Mas estávamos lá, presentes, com nossos corpos de coragem e sonhos. Assim como estamos aqui hoje, ouvindo outros estudantes e professores, compartilhando a esperança em nome da democracia. E tê-la ao meu lado, me faz lembrar que nós não somos os privilégios que vivemos, mas sim as lutas e conquistas que nos permitiram chegar até aqui. Resistimos, por nós e por aquelas que merecem ter a oportunidade de estudar e viver amizades como essa. Você é testemunha e cúmplice na minha história, Thaís. E é uma honra caminharmos juntas.

Leio o jornal velho sobre a mesa. Só os quadrinhos e uma crônica sobre sexo e imaginação. “Até que proíbam”, penso, enquanto bebo a segunda taça de vinho. Minha cachorra tenta resistir ao sono, mas seus olhinhos se fecham devagar, ao ritmo de Debussy. Poderia ser a cena de um filme sobre a véspera do juízo final. Rio da minha dramaticidade. A mãe de um amigo me escreve, dizendo que chorou ao pensar sobre o futuro. Ela e eu sabemos que dias difíceis virão, especialmente para quem não limita o amor ou o desejo a gêneros. Digo que resistiremos, que somos fortes. Quero a tranquilizar e convencer a mim mesmo. Uma desconhecia também me confidencia que chorou ao ouvir Elis Regina, na voz de tantas outras mulheres, como nossas mães. Seremos esperança, respondo. A mudança possível. Até que um outro jornalista me conta que uma amiga foi expulsa do ônibus e teve seu livro rasgado, aos gritos, “porque Bolsonaro vai acabar com as feministas”. Ele está em pânico, sua namorada lê e compartilha as mesmas crenças, persiste em valorizar as diferenças daqueles que emigram. Estamos na linha de frente, ele me diz. Discordo, nós somos a própria trincheira contra a barbárie. Não negociamos a liberdade de viver e criar novas possibilidades. Em forma de palavras, imagens, silêncios, sons... O prazer de não ter frases prontas. O desconforto de ver suas certezas serem confrontadas. Seguiremos, assim, como sempre e nunca fomos. Sabendo que somos muitos. Todos os sonhos que não serão manchetes de jornal.

Dois blocos do principal debate na TV, em que ninguém dirige a palavra a única mulher na disputa. Dois blocos de um debate onde as regras privilegiam os de sempre, possibilitando inclusive que os candidatos joguem em dupla, só falando sobre o que querem com quem lhes convém. Não fosse tão simbólico, eu diria que é apenas uma vergonha. Mas “não dá pra ficar vendo tudo isso acontecer e não resolver que você vai fazer alguma coisa”. Aprendi isso com a @professoralisete e decidi compartilhar com vocês em forma de entrevista, uma das mais importantes do @elacandidata até aqui. O vídeo completo está no nosso site, canal e fanpage. Veja, independente se você já tem um candidato ou não vota em SP. É uma aula de democracia e política.

"a gente vai destruir tudo que você ama
y tudo o que c chama “amor”
a gente vai destruir

porque c chama de “amor à pátria”
o que é racismo e xenofobia
c chama de “amor a deus”
o que é fundamentalismo
c chama de “amor à família”
o que é sexismo y homofobia
y transfobia c chama de “amor à natureza”
(o que vc sabe da natureza?
pra você a natureza é só alguém pra ser dominada)

o que c chama de “amor à segurança”
é militarismo
y o capitalismo c chama de “amor pelo trabalho”
MENTIRA
É PURA ADORAÇÃO PELO DINHEIRO!

c chama de “amor pela democracia”
o que é GOLPE
y especismo c chama de “amor à espécie humana”
o que c chama de “amor às escrituras sagradas”
é um caso clássico de tradução errada

que conveniente pra você chamar deus de “ele” né?
mas eu vi deus
y ela é preta!
então se liga
a gente é o seu apocalipse cuíer
y vai destruir tudo o que vc ama

o que cê chama de “liberdade”,
seu “amor pela civilização”, pela “cultura erudita”
a gente vai tacá fogo porque é genocídio y epistemicídio,
é colonização

quer matar tudo que ama,
tudo que dança,
tudo que goza,
tudo que ri,
tudo que luta,

quer matar a gente.

quer matar tudo que sente
mas a gente
que nem semente daninha
sobrevive,
invade,
y destrói

a gente,
que você amaldiçoa em nome do seu amor normativo, segregador,
doentio,

a gente é que é amante
a gente é que vive y espalha

amor"

cuíer A. P. (ou “oriki de shiva”) de Tatiana Nascimento.

Muita coisa me encheu de esperança hoje. E de fúria. Não há volta e nós seguiremos juntas. #elenao #elenunca (Foto: Stringer Reuters)

Desobediência é um dos filmes que mais me tocou nesse ano. Possivelmente, porque ele é sobre amor e liberdade que, para mim, são a mesma coisa. E talvez por isso eu tenha tanta dificuldade em entender quem deseja viver relações e governos que, ao invés de ampliarem os horizontes e os direitos, preferem restringir o acesso a eles, a começar pelo discurso. Eu vivo de contar histórias e sei o poder que as palavras têm. É nelas que nascem as pequenas mudanças e as grandes revoluções. É através delas que compreendemos o mundo e a nós mesmos. Quando alguém toma pra si o direito sobre a história de todos, tanto de escrevê-la quanto de ressignificá-la, eu sei que meu lugar não é ao seu lado. Eu sei que não devo e não quero usar a minha voz para repetir suas frases de efeito, vazias de significado. Porque o direito de me expressar, como mulher, custou muito caro àquelas que vieram antes de mim. Por respeito à elas e as que ainda serão, hoje eu digo #elenao #elenunca

Hoje, pela primeira vez, eu acordei de madrugada inquieta com uma ideia e, ao escrevê-la no meu bloco de notas, o fiz em inglês. Intuitivamente em inglês. Com uma construção e jogo de palavras que só faz sentido em inglês. E isso é tanto pra mim.

Eu acredito que essa é uma eleição de escuta, que só através do diálogo nós conseguiremos evitar a barbárie e mudar o Brasil. Por isso, não poderia concordar mais quando a @monica.rosenberg.sp diz que “A mudança política passa pelas mulheres”. Ela, que se auto intitula “uma liberal entre os liberais do @partidonovo30 “, é a terceira candidata a deputada federal que entrevistamos no @elacandidata , um projeto apartidário, que tem a intenção de ser plural, e ouvir e falar com mulheres dos mais diversos perfis políticos. Se você ainda não conhece, visite o perfil @elacandidata , que conta ainda com canal, site, fanpage e grupos de cada estado no Facebook, onde divulgamos planilhas com TODAS as candidatas, que podem ser filtradas por partido, raça/cor, formação... Tão importante quanto dizer #elenao é considerar que #elasim (aquela que melhor te representa, é claro) :)

A esperança é para os corajosos.
Hoje, recebi diversos relatos de pessoas da periferia que, ao ter a oportunidade de estudar, conquistaram sonhos. Lendo cada um deles, lembrei que podemos sim escrever e viver novas histórias, individualmente e de forma coletiva.
Há muita gente interessada em propagar o medo, para dividir e dominar. Eu não.
No meu Stories há algumas dessas “pílulas de esperança”. Mas só para quem ainda ousa acreditar.

Nós precisamos conhecer as mulheres que têm coragem de concorrer a cargos eletivos no Brasil. Nós só vamos transformar a política se fizermos uma eleição de escuta e diálogo, com quem compartilha das nossas lutas diárias. É para isso que o @elacandidata existe. E persiste, de forma voluntária, em construir pontes. Vamos juntas mudar o país.

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