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Talita Ribeiro  ‪Viajante e escritora. Autora do Turismo de Empatia e criadora do #nyc10orless. Sempre escrevendo novas histórias :)

"Eu me formei mesmo foi na Editora Abril", comento com uma amiga, enquanto conversamos sobre nossas carreiras em (constante) transformação. E sinto um nó na garganta.
A minha universidade da vida real fechou.
E não foi por falta de bons professore, colegas e amigos de trabalho inspiradores. Até ontem, ou ao menos no ano passado, eu ainda frequentava seus corredores imaginários, publicando um textinho aqui e outro ali, mais pelo prazer de estar presente que pelo dinheiro, confesso.
A primeira notinha que escrevi para a VT (para os íntimos) foi sobre a Galeria do Rock, quando eu ainda era uma freelancer do Viajeaqui. Depois veio a chance de ser estagiária da revista, aprender com as reuniões de pauta a defender o que acreditava, mesmo sob pressão, mesmo me sabendo tão inexperiente naquele setor.
Sim, o meu primeiro voo internacional foi a trabalho, o segundo, o terceiro... E um mundo de possibilidades se abriu, para ser bem clichê e vir um editor me corrigir. A primeira vez que pensei em sair, recebi uma proposta para ficar mais um pouco e ser contratada como repórter, antes mesmo de me formar. Isso me deu segurança para acreditar no meu potencial. "Faça fazer sentido", Alice Ruiz me dizia, em um post-it colado na minha baia.
Em cinco anos de Abril, eu tive sorte, muita sorte, com a maioria dos profissionais com quem trabalhei. Fiz amigos na redação, nos destinos, entre leitores, assessoras e fontes do mercado. Aprendi muito, com todos. E ainda aprendo, porque, após decidir sair de lá, há 7 anos - "para ter mais dinheiro e tempo"-, consegui manter o contato com alguns deles, mesmo que apenas pelas redes sociais, como essa aqui.
E ler os textos que eles escreveram, se despedindo da revista e da editora, me dói e me alegra, quase na mesma medida. Porque é um prazer e honra compartilhar um pouco dessa história, ainda que finda, com vocês.
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Esta foi a primeira matéria de capa que escrevi, com fotos incríveis da @andreadamato ❤️

E a casa se transforma em lar, porque nós estamos aqui. Não apenas nos porta-retratos que monto, mas nas prateleiras que você fixa na parede, nas novas possibilidades para os cômodos que eu planejo e você executa, nas improvisações tão nossas, que dispensam explicações. E é tão bonito e bizarro perceber, na prática, o quanto somos diferentes e, por isso mesmo, complementares, potencializando o que há de melhor um no outro. Parafraseando uma dessas citações de instagram “sigo apaixonada pela família que nós lutamos para ser”. E seguimos, juntos, a nossa maneira. Te amo @marcogomes ❤️

Ele quer conhecer uns 50 países, pra isso, viaja no mínimo uma vez por ano para o exterior - em 2018, duas -, e mais uma para o nordeste, porque não é bobo. Ele quer se aposentar na Europa, já tirou a cidadania portuguesa da minha mãe e me enviou o passo a passo para eu tirar a minha. Se pudesse, ele não teria endereço fixo e só falaria sobre viagens. Não há como negar que é o meu pai, os nossos olhos, de cílios imensos em direção ao horizonte, entregam. Te amo @gscarneiro ! Feliz dia dos pais ❤️

A nova casa tem horizonte e mais barulho do que eu esperava, ou talvez eu só esteja desacostumada com Nova York e suas buzinas e sirenes. São 80 degraus até o último apartamento antigo do prédio, que deve ser da década de 60. As portas são todas vermelhas, a minha é colada com a do vizinho, a la “A forma da água”. Há poucos armários e muitas janelas, há um banheiro feio que vou transformar numa floresta. A sorveteria está há apenas cinco minutos andando, há dez está a banca de flores com o melhor custo beneficio, foi lá que comprei um buquê de cravos para a nova casa. No supermercado ao lado, a cerveja que o @marcogomes gosta custa menos de US$ 2 e ainda ganhei brinde, que virará presente para ele, “pelos filhos que não temos”, escrevi no cartão imaginário. Ainda há muitas caixas, desejos de “pequenas reformas”, medo dos vizinhos - aqui, essa é sempre uma questão -, e cansaço. Mas hoje, sozinha na nova casa, sentada na minha mesa de trabalho, vendo o Empire State acender suas luzes ao anoitecer, me emocionei e tive uma vontade danada de voltar no tempo e mostrar essa foto pra adolescente cheia de sonhos que eu fui. Nós estamos aqui. Ainda sonhando, às vezes, acordada. Obrigada vida, obrigada Marco, meu companheiro de mudanças - até daquelas que você nem queria fazer :P

Riqueza de afetos. “E o poeta te diz: compra o teu tempo.” (Hilda Hilst)

O cheiro que anuncia a chuva trás com ele as telhas de barro da casa de minha avó.
O perfume úmido da tempestade me leva à infância, com velas sobre a pia, ao lado de pires e fósforos, a postos. Eu quase posso ver o vento batendo em cada janela.
A primeira gota, por entre as telhas e as vigas de madeira que as sustentam, caindo pesada no chão de cera vermelha. O pano que tenta conter a água, os baldes e panelas formando um campo minado.
Será que a luz acaba? Ela sempre cai na periferia de minhas lembranças.
Será que a rua enche? Os canos e sarjetas feito cachoeiras.
Raio... um, dois, três, trovão!
Raio... um, dois, trovão!
Está cada vez mais perto!
A ansiedade e o medo de vê-lo brincar no meu quintal.
Coloca o chinelo, menina!
Os pés descalços o atraem, eu sempre soube, é na terra que o relâmpago descansa.
Já imaginou se sobe pelas minhas pernas, fazendo cócegas no meu corpo e tomando a minha cabeça?! Eu sempre soube, Oya.
A vista chega a embaçar, enquanto lá fora um manto branco e fluído cobre todas as coisas. Por um momento, o mundo é uma grande lousa, onde meus dedos desenham corações, flores, as letras do meu nome sobre o suor da casa.
Nas paredes, as sombras de meus avós são gigantes e dançam com a chama eterna da memória.
A chuva vai embora sem se despedir, deixando pegadas pelo quintal.
As sigo até o pé de boldo, tão verde e vivo, cheio de gotinhas equilibristas em suas folhas.
As rosas são copos d’água, cujo perfume não é páreo para o cheiro de terra molhada.
Respiro, profundamente, e a tempestade me habita. ****** (Na foto, o leite com rapadura do @balaioims , a bebida mais afetiva que já experimentei)

“Sei que isso pode ser chato, mas sou sua fã e gostaria de tirar uma foto”, as palavras tropeçam na vergonha e eu chego ao final da frase quase sem voz.
Há minutos, que pareciam horas, eu o observava de canto de olho tomar seu café, na mesma mesa compartilhada onde passo boa parte das manhãs em São Paulo. Ele estava escrevendo uma música, enquanto eu fingia ler o jornal. Simpático, brincou um pouco com as cachorras e puxou papo sobre elas, deixando a adolescente dentro de mim quase sem ar. Havia fogos de artifício no meu olhar, eu sabia e tentava disfarçar, falando baixinho sem o encarar.
Ele arrumava as coisas para ir embora, quando respirei fundo e fiz o pedido, tão sincero e juvenil. Antes que ele pudesse responder, porém, a garota que ocupava a outra ponta da mesa gritou, “Aproveitando, eu sou sua fã e amo tudo o que você escreve”. Demorei um tempo para entender que a frase era direcionada pra mim e não pra ele, que me olhou admirado e perguntou se eu era jornalista. Apenas sorri sem graça, balançando a cabeça de forma afirmativa. “Ela tem dicas ótimas sobre NY”, complementou a garota, “eu leio todas”, me disse. Agradeci, ainda sem acreditar na cena. “Meu filho está indo para Nova York”, o músico falou. “Posso ajudá-lo, se ele precisar”, respondi, “mas será que a gente...”. “Claro”, ele se aproxima e eu tiro duas selfies. ***
Hoje é ele quem me olha de canto de olho, enquanto dou uma entrevista sobre o meu livro, na mesma mesa compartilhada do café. Sorrio tímida, enquanto ele acena com a cabeça. ***
Tem dias que a vida parece filme.

Eu quero que muitas meninas conheçam essa mulher, que a tenham como referência, de ilustradora e também cientista, para que lembrem sempre que podem ser o que quiser. E que podem até mesmo se sentir inseguras, estar vulneráveis, ter medo e continuar seguindo seus sonhos, de preferência, os compartilhando com outras mulheres. Nós não precisamos passar por tudo sozinhas, nós podemos confiar umas nas outras, olhar para o lado e sentir orgulho por aquelas que escolhemos, por quem são, não pelo que idealizamos, ver uma beleza rara naquilo que as faz humanas, imperfeitas e, por isso mesmo, únicas. E é tão incrível saber que através das mãos dela minhas palavras ganham vida e traços tão doces. Que sorte da Ramsa nos ter como mães. Que sorte a nossa partilhar essa criação. E é até um pouco irônico lembrar que esse encontro surgiu porque homens, ao ler essa história, reconheceram que ela era das meninas e das mulheres. E me aconselharam a encontrá-la. Agradeço ao Turismo de Empatia pela graça alcançada, por tê-la como leitora e, através de seu olhar generoso, me ver tão melhor. Hoje, acompanhando ela desenhar, fiquei sinceramente emocionada. E com vontade de apresentá-la para todo mundo. Obrigada pela confiança e parceria, @clorofreela ❤️

A delicadeza dos dias nada banais. Há 72 horas a morte tem dado o tom, até que a vida vem e preenche tudo com uma beleza que não nega ou disfarça o que temos encarado, apenas diz “olhe pra cá, eu também estou aqui”. E lá está ela, misturando o passado, o presente e o futuro, não respeitando as divisões inúteis que nós criamos do tempo.
Obrigada por esse sábado, vida. Eu sou grata à todas aquelas e aqueles que (se) deram uma trégua. O amor é isso também.

Pôr do sol, Fofura, Spice Girls, risos, choros, piadas obscenas, os filhos brincando e ignorando as nossas bobagens, você toda alviverde, flores, abraços, cachorros e pássaros, horizonte, o céu azul, depois laranja, purpurina verde com a grama, a terra grudando no sapato, pedrinhas no caminho, ladeira abaixo nós seguimos ao seu lado.
Até não poder mais.
Em nossa última conversa, falamos sobre paixão, amor e luto. Era um prelúdio e eu não sabia.

Te escrevi um cartão, que há meses te esperava, nas muitas malas em que morei. Usei lápis e lágrimas. Era do Friends, que você tanto gostava.
Te devo para sempre uma Blue Moon.
Pior é o Palmeiras, que te deve um Mundial. Um dia, quem sabe, brindo essa conquista em sua homenagem. Até lá, “dá-lhe alegria, alegria no coração, olê, olê...” Mas hoje, hoje não.
Porque nada no mundo substitui o seu abraço, ainda que, ironicamente, você esteja presente em tantos outros braços.
E eu, que sempre te dediquei um trecho de “Carta de amor”, me pego cantarolando outra canção: “No dia em que ocê foi embora
Eu fiquei
sentindo saudades do que não foi
Lembrando até do que eu não vivi
Pensando em nós... Duas”

Te amo em cada lembrança, vivida ou sonhada. Te amo pelo que fomos em mais de uma década de amizade. Te amo até doer, porque é assim que você me ensinou. Te amo, com a coragem de quem sabe que perdeu.
Para sempre.

Há 11 anos nós nos encontramos sempre no mesmo lugar. Ela e a cidade se fundem na minha saudade. Me sinto em casa e segura no Fim do Mundo porque ela está ali. E foi assim desde o início, quando a Ana apareceu no meu hotel e eu não tinha roupas limpas, porque minha mala havia sumido. Ou quando, oito anos depois, visitei o hotel dela e pude sentir o seu carinho em cada detalhe, desde o quarto até no café da manhã. Ou nesses três dias, onde o nosso almoço ecoou pra além das horas em que compartilhamos uma garrafa de vinho, medos e esperanças sinceras. Discordamos, concordamos, duvidamos e seguimos com uma admiração que não se dobra ao tempo. E que sorte a nossa ter Ushuaia como cenário disso tudo. Mas, principalmente, que sorte a minha poder te chamar de amiga. Obrigada, Ana, por ser sempre tão generosa e estar presente em algumas das minhas melhores e mais marcantes lembranças de viagem. (Lembra quando choramos juntas vendo a neve sobre o bosque, rios e montanhas em Cerro Castor? Eu sempre me emociono ao recordar a gratidão que senti por estar ali, ao seu lado.) Espero, em breve, retribuir um pouquinho do muito que você já fez por mim. E, claro, reencontrá-la pelo mundo, vasto mundo, que é o nosso lar. Até a minha volta ou a sua ida, @alkb85 ❤️

O que mais me surpreendeu no Canadá veio da Etiópia. A África e os africanos retratados de forma bela e impactante, refletidos em um espelho d’água, que me lembrou o mar. “Tem cor, tem corte e a história do meu lugar”, @luedjiluna canta em meu ouvido. @aidamuluneh usa elementos tradicionais de culturas africanas, mas também indígenas e de outros povos originais, em suas composições. “Porque as culturas tradicionais são muito mais contemporâneas que a própria arte contemporânea”, leria depois. A fotógrafa, que teve uma vida nômade, vivendo em países como Iêmen, Inglaterra, Chipre, Canadá e Estados Unidos, antes de voltar à Etiópia, desperta através de suas obras uma reflexão sobre o que há de universal nas máscaras que usamos diariamente. As imagens são também uma resposta à pseudo neutralidade fotográfica que retrata a África e seus descendentes sempre da mesma forma, destacando a pobreza e a violência. Há muito mais a ser visto e admirado, o olhar talentoso de Aida é um convite. E você pode encontrá-lo no MoMA, em Nova York, até dia 18 de agosto, entre outros fotógrafos, em molduras pequenas demais para a beleza e profundidade de seus retratos. Eles são parte da coleção “O mundo é 9”, que faz referência a uma expressão da avó da artista. “Significa que o mundo nunca é um 10 perfeito, independente de onde você esteja.” Mas se puder, recomendo que vá aos jardins do Aga Khan Museum, em Toronto, que merece um post a parte, por sua arquitetura, rica coleção de arte islâmica e história. A exposição gratuita, nomeada “Reflexões de Esperança”, é a melhor experiência de arte que vivi nesse ano. Espero, em breve, ver outras obras de @aidamuluneh no Museum of African Art de Washington D.C. e, Oxalá, encontrá-la pelo Brasil. Que tal, @imoreirasalles ? ;)

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